Trabalho doméstico poderia gerar trilhões de dólares no mercado
O Pavilhão do Brasil na Expo 2025 Osaka, organizado pela ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), promoveu o debate “A Economia do Cuidado e seu Impacto na Empregabilidade das Mulheres”. O evento fez parte da Semana da Mulher realizada pela agência. O debate focou em como manter o emprego feminino e alcançar a igualdade de gênero, com a participação de líderes femininas internacionais de diversas origens, que compartilharam suas visões.
O evento foi moderado por Bruna Cortella, Deputy Manager of International Affairs do Banco do Brasil. Citando pesquisa da ONU Mulheres, ela observou que “as mulheres dedicam 2,5 vezes mais tempo que os homens ao trabalho de cuidado não remunerado, limitando diversas oportunidades, incluindo educação, emprego formal e participação política”. Atualmente, 708 milhões de mulheres em todo o mundo estão fora da força de trabalho devido às responsabilidades de cuidado, representando quase um terço das mulheres em idade ativa. A ONU Mulheres também aponta que políticas públicas focadas em cuidado podem criar até 300 milhões de empregos até 2035 e promover uma recuperação econômica inclusiva.
A Diretora de Negócios da ApexBrasil, Ana Paula Repezza, também prestigiou o evento. Foi ela quem criou o Programa Mulheres e Negócios Internacionais, em 2023. Esse programa recebeu o prêmio WTPO Awards 2024 – Excellence in Export Development Initiatives, concedido pelo International Trade Centre (ITC) da Organização Mundial do Comercio (OMC). Também recebeu o Prêmio de Igualdade de Gênero no Comércio, concedido pela OMC, em 2025.
Corporativo
A “economia do cuidado” refere-se a atividades essenciais da vida, como cuidar de familiares, incluindo crianças e idosos, e tarefas domésticas. No entanto, esse trabalho continua sendo um “trabalho invisível”, frequentemente compartilhado de forma desigual entre homens e mulheres, e não só não é remunerado como também é subvalorizado. Em resposta a essa situação, Andrea Scaldaferri, gerente-geral da agência do Banco do Brasil em Xangai, enfatizou o potencial das mulheres. Citando o exemplo do Banco do Brasil, onde muitas mulheres vêm assumindo cargos-chave desde 2022, ela enfatizou a importância de empresas e instituições atuarem como agentes de mudança na sociedade. “As mulheres carregam o pesado fardo de cuidar dos filhos e das tarefas domésticas, o que inevitavelmente as leva a perder oportunidades. No entanto, a igualdade de gênero transforma a sociedade, e oferecemos uma variedade de programas para apoiar as mulheres. O importante é ter uma base de conhecimento e educação e, então, tera atitude de aproveitar as oportunidades quando elas se apresentarem”, disse.
Já Paula Tashima, que tem raízes na Argentina, enfatizou a necessidade de as empresas incorporarem a questão de gênero em sua visão. “Embora seja importante promover ativamente as mulheres, também é importante entender que elas foram promovidas com base no mérito, em vez do preconceito de que ‘ela foi promovida porque é mulher’. Se não criarmos oportunidades para discutir gênero dentro das empresas e organizações, as questões de gênero nunca serão resolvidas. Como empresa, precisamos colocar isso em prática, em vez de apenas pensar: ‘Talvez devêssemos mudar isso’.” Tashima atua como Líder de Mercados de Capitais para a Ásia-Pacífico e Japão na empresa de tecnologia EY. Ela também sugeriu o potencial para um maior desenvolvimento combinando as perspectivas teóricas dos homens com a flexibilidade das mulheres.
Chiou See Anderson, Delegada W20 da Austrália, enfatizou a importância de promover o desenvolvimento econômico reduzindo a carga de cuidados infantis. “Em vez de cuidar de cada criança individualmente, cuidar de 10 crianças por uma mulher incentivaria as mulheres a retornarem ao trabalho. Embora o trabalho doméstico não remunerado não seja incluído no PIB, ele pode gerar US$ 9 trilhões em valor de mercado”, disse ela. Ela também pediu mudanças em nível doméstico, dizendo: “Os estereótipos começam em casa. Nunca devemos dizer: ‘Porque você é um menino’ ou ‘Porque você é uma menina’. Isso é violência indireta e gera infelicidade social.”
Comunidade brasileira
A presidente da NPO Sabja (Serviço de Assistência a Brasileiros no Japão), Erika Tamura, enfatizou o potencial da comunidade brasileira no Japão à medida que as mulheres avançam na sociedade. Com base em sua própria experiência de trabalho em uma fábrica logo após chegar ao Japão, ela disse: “Pessoas brasileiras vêm ao Japão com grandes expectativas, mas, em muitos casos, enfrentam uma realidade diferente de seus sonhos. Viver no Japão, onde tudo é diferente, incluindo o idioma e a cultura, é muito mais difícil do que imaginavam.” A NPO oferece apoio abrangente aos brasileiros que vivem no Japão, oferecendo não apenas ensino da língua japonesa, mas também apoios psicológico e jurídico. Ela explicou a motivação por trás do trabalho: “Acreditamos verdadeiramente no potencial das mulheres brasileiras. Mesmo as mulheres que se formam na universidade e obtêm qualificações no Brasil permanecem em casa, no Japão, trabalhando em fábricas ou fazendo trabalhos domésticos. Entrar no mercado de trabalho não só ajuda a desenvolver a comunidade brasileira, como também contribui para o desenvolvimento do Japão.”
O debate é importante porque nortearam as agendas de debates durante o G20, que aconteceu no Brasil em 2024 e podem ser expandidos para os países da Expo Osaka. Além disso, esta proposta está alinhada com instituições brasileiras relevantes que trabalham direta ou indiretamente com a agenda de gênero, incluindo o Ministério das Relações Exteriores, Ministério da Mulher, Ministério do Desenvolvimento Agrário e da Agricultura Familiar, Rede Feminina de Empreendedorismo Feminino, W20 e ONU Mulheres.
ONU Mulheres
A ONU Mulheres existe para promover os direitos das mulheres, a igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas. A ONU Mulheres, em parceria com a ApexBrasil, participa de dois seminários para abordar questões estratégicas sobre igualdade de gênero: A Economia do Cuidado e seu Impacto na Empregabilidade das Mulheres e a Relação entre Justiça Climática e Direitos das Mulheres.
No ano em que o Brasil sedia a COP 30 e marca o 30º aniversário da Declaração e Plataforma de Ação de Pequim, essas duas questões estão em destaque. A ONU Mulheres convida à reflexão em todos os espaços sobre o desenvolvimento e a implementação dos princípios estabelecidos pelas delegações de mulheres em Pequim em 1995.
Este evento foi realizado em 27 de agosto no Pavilhão da Mulher, em colaboração com a Cartier. O diálogo faz parte da Semana da Mulher e continuará até 30 de agosto, juntamente com outros seminários.
Foto: Andri Magdych/ApexBrasil