Boletim CCBJ

A Câmara de Comércio Brasileira no Japão (CCBJ) envia regularmente boletim eletrônico aos associados.

Na edição de abril, o artigo foi escrito por Ken Shimamoto, Senior Research Analyst Strategic Research Department, Division 1, de Japan Bank for International Cooperation (JBIC). Ele analisou pesquisa de empresas interessadas em expansão no exterior e o Brasil avançou nesse levantamento.

Pesquisa sobre Expansão dos Negócios Internacionais das Empresas Japonesas em 2025

Por Ken Shimamoto

Senior Research Analyst

Strategic Research Department, Division 1

Japan Bank for International Cooperation (JBIC)

  1. Introdução

Em dezembro do ano passado, o Banco de Cooperação Internacional do Japão (JBIC) publicou o “Relatório de Pesquisa sobre a Expansão dos Negócios Internacionais das Empresas Japonesas (GLOBE)” para o ano fiscal de 2025. Para esta edição, enviamos os questionários no início de julho para temos respostas até o início de setembro (Setor Manufatureiro: 1072 empresas consultadas, 541 respostas válidas, taxa de resposta de 50,5%; Setor Não Manufatureiro: 757 empresas consultadas, 192 respostas válidas, taxa de resposta de 25,4%).

Vala destacar que o Brasil retornou ao “top 10” no ranking de países mais promissores pela primeira vez em nove anos. Este artigo visa a organizar os principais tópicos do relatório referentes ao Brasil, com foco na indústria manufatureira, e analisa as perspectivas para o desenvolvimento de empreendimentos das empresas japonesas para os próximos anos.

  1. Postura em relação aos negócios internacionais

Em relação à postura geral sobre os negócios no exterior, houve uma leve recuperação na proporção de empresas que pretendem “fortalecer ou expandir” suas operações, que havia apresentado queda no ano anterior, contabilizando 63,2% (um aumento de 1,2 ponto percentual em relação ao ano anterior [Gráfico 1]). As consultas realizadas com as empresas detectaram, apesar da alta incerteza devido aos riscos geopolíticos e às tendências das políticas dos Estados Unidos, um movimento crescente de otimização das cadeias de suprimentos, incluindo a promoção da produção local para consumo local, que visa a aumentar a resiliência para enfrentar o atual cenário.

Entretanto, no quesito sobre os países alvos nos quais pretendem “fortalecer ou expandir” seus negócios, apenas 6,1%dos investidores apontaram o Brasil. Mesmo entre as empresas que já possuem sedes no Brasil, o índice permanece baixo, em 7,6%. Ao considerar que os principais países da ASEAN (Tailândia, Indonésia e Vietnã) obtiveram taxas entre 20,5% e 26,2% — em contraste com a faixa registrada pelos principais países da América Latina (Brasil, México e Chile), que ficou entre 6,9% e 7,5% —, a distância geográfica deve ser um dos fatores limitantes para investidores japoneses tomarem iniciativas imediatas no mercado latino-americano.”

Gráfico 1: Evolução da intenção de fortalecimento/expansão e países prioritários (20 países mais votados)

  1. 3. Brasil volta ao Top 10 no Ranking de Países Promissores após 9 anos

O gráfico 2 mostra o resultado da pesquisa com o setor manufatureiro sobre os países mais promissores para expansão de negócios a médio prazo. Vale citar que a Índia se manteve no 1º lugar pelo quarto ano consecutivo devido às expectativas de crescimento do mercado, enquanto que os Estados Unidos subiram da 3ª para a 2ª posição, impulsionados pela solidez econômica e pela atratividade de seu mercado interno, dentro do contexto onde a administração Trump vem se empenhando para revitalizar a indústria nacional. Outra novidade é que os países da ASEAN apresentaram queda na taxa de votos devido à intensificação da concorrência com empresas chinesas e outros fatores. Entre os países da América Latina, o México teve uma queda marcante, caindo da 7ª para a 9ª posição, com uma redução de 3,7 pontos percentuais na taxa de preferência, o que reflete preocupações dos investidores sobre o futuro das negociações do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA). O Brasil, por sua vez, registrou um aumento ligeiro na taxa de preferência (+0,2 ponto percentual em relação ao ano anterior) e conseguiu retornar ao top 10 pela primeira vez em nove anos, conquistando a melhor colocação depois do México entre os países latino-americanos. No total, 17 empresas elegeram o Brasil como um país promissor. Por setor, os destaques foram as indústrias química (4 empresas; 23,5%), alimentícia (4 empresas; 23,5%) e automotiva (3 empresas; 17,6%). Alguns fatores citados por essas empresas como motivos para considerar o país um mercado promissor foram: “a demanda robusta por motocicletas, que a oferta mal consegue suprir” (setor automotivo) e “o crescimento da agricultura, impulsionando a forte demanda por defensivos agrícolas” (setor químico).”

Além disso, entre as empresas que classificaram o Brasil como um país promissor, a proporção daquelas que possuem planos concretos de investimento atingiu 52,9% (Gráfico 3), somando novos projetos e investimentos adicionais. Este foi o índice mais elevado entre os dez principais países do ranking. Diante desses dados e das percepções coletadas junto às empresas, pode-se concluir que o interesse pelo país está fundamentado em uma demanda real, o que gera expectativas de investimentos consistentes para o futuro.

Gráfico 2: Países e regiões promissores para expansão de negócios do setor manufatureiro a médio prazo (próximos 3 anos aproximadamente)

Gráfico 3: Taxa de empresas com planos de investimento entre os 10 países mais promissores

 

  1. Potencial e Desafios para o Brasil

Analisaremos agora os pontos positivos citados pelas empresas que consideram o Brasil como um mercado promissor, bem como os desafios apontados por elas (Gráfico 4). Quanto aos fatores positivos, a grande maioria das empresas (81,3%) citou o “potencial de crescimento futuro do mercado local”, refletindo as fortes expectativas em relação ao mercado brasileiro, que detém a maior população da América do Sul, com mais de 200 milhões de habitantes. Entre os desafios, a “complexidade do sistema tributário” (50,0%) e a “falta de transparência na gestão tributária” (50,0%) foram os mais citados.

Gráfico 4: Pontos positivos e desafios no Brasil (Top 3 itens)

Vale comparar o percentual das empresas que citaram a “complexidade do sistema tributário” e a “falta de transparência na gestão tributária” como os principais desafios para os países que ocupam da 6ª à 10ª posição no ranking (Tailândia, Malásia, Filipinas, México e Brasil). Conforme demonstram os Gráficos 5 e 6, o Brasil apresenta percentuais significativamente mais altos do que os demais países, indicando a percepção dos investidores japoneses de que as barreiras tributárias brasileiras são mais severas.

Por trás disso, há fatores estruturais no Brasil. O país possui um sistema complexo de impostos indiretos que abrangem as esferas federal, estadual e municipal, o que gera divergências de interpretação e litígios tributários. Consequentemente, a carga administrativa para o cumprimento das obrigações fiscais tende a ser mais pesada.

Além disso, ainda há dificuldades práticas, como a falta de fluidez na compensação e restituição do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) em operações interestaduais, o que tende a gerar insatisfação entre as empresas. Nos últimos anos, a fiscalização tributária tem se tornado ainda mais rigorosa, diante da crescente importância da arrecadação sob a pressão por uma maior consolidação fiscal. Diante desse cenário, o governo brasileiro está empenhado em melhorar o ambiente de negócios por meio da unificação e simplificação do sistema tributário. É preciso acompanhar atentamente o andamento dessas reformas e como elas impactarão a percepção de desafios por parte das empresas japonesas.

Gráfico 5: Percentual das empresas que citaram “complexidade do sistema tributário local” como desafio para os países que ocuparam 6º a 10º lugares no ranking de mercados mais promissores

Gráfico 6: Percentual das empresas que citaram “falta de transparência na gestão tributária local” como desafio para os países que ocuparam 6º a 10º lugares no ranking de mercados mais promissores

  1. 5. Conclusão e Análise

Nesta pesquisa, o Brasil subiu de posição no ranking de países promissores, impulsionado por uma demanda real consistente. No entanto, o país já chegou a ocupar a 5ª posição no passado (nos anos fiscais de 2010 e 2011) e, considerando a dimensão de seu mercado e a sólida parceria com o Japão, há um potencial considerável para conseguir mais votos e subir no ranking. Para isso, é indispensável a melhoria do ambiente de negócios por meio da resolução de entraves institucionais, como o sistema tributário, que é um dos principais desafios prioritários.

Caso esses pontos sejam solucionados, o Brasil poderá consolidar-se como um destino de investimento ainda mais atraente para empresas japonesas, em meio à onda de reestruturação das cadeias de suprimentos globais que a indústria nipônica vem implementando.

As empresas japonesas têm construído relações de confiança de longo prazo com seus parceiros nos setores de motocicletas e de defensivos agrícolas, por exemplo, oferecendo não apenas produtos e serviços de excelência, mas também suporte pós-venda e garantia de qualidade, o que tem resultado em sucesso comercial contínuo.

Apesar de obstáculos como a distância geográfica e o menor nível de reconhecimento em comparação aos países da ASEAN, espera-se que o fortalecimento da presença do Brasil no Japão — fundamentado numa relação bilateral, que vem se tornando cada vez mais profunda e multifacetada ao longo dos últimos 130 anos, bem como na compreensão madura dos investidores japoneses sobre o mercado brasileiro — seja ainda mais impulsionado pelos esforços de diversos stakeholders, como a CCBJ e o JBIC. E que essa parceria gere novas oportunidades de crescimento mútuo em setores amplos, incluindo as áreas de sustentabilidade e de recursos naturais.

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