Boletim CCBJ

A Câmara de Comércio Brasileira no Japão (CCBJ) envia regularmente boletim eletrônico aos associados.

Na edição de março, o artigo foi escrito professora Akiko Koyasu, da Universidade de Sophia. Ela abordou o conteúdo do “Seminário sobre o Brasil Contemporâneo – Como se relacionar com o Brasil”. O evento foi realizado pela CCBJ, com o apoio da Embaixada do Brasil no Japão recentemente.

 

Resumo do Seminário “Brasil Contemporâneo: Brasil no Sul Global”

Por Akiko Koyasu

Professora da Faculdade de Estudos Estrangeiros da Universidade Sofia

O livro “Brasil Contemporâneo: Sua Presença Crescente no Mundo em Transição (Edição Revisada)”, lançado em setembro de 2025, é uma versão do livro originalmente publicado em 2019, que ganhou textos novos escritos por Kotaro Horisaka (Professor Emérito da Universidade Sofia), Kojiro Takeshita (Professor da Universidade Takushoku) e por mim, levando em consideração as mudanças ocorridas ao longo dos últimos anos na conjuntura internacional e no próprio Brasil. Esperamos que a obra sirva como um livro didático para estudos regionais sobre o Brasil em universidades, além de atingir um público amplo, incluindo aqueles que atuam no mundo de negócios com o país.

Na apresentação, abordei inicialmente o posicionamento do governo brasileiro em relação aos ataques militares dos EUA e de Israel contra o Irã, ocorridos em 28 de fevereiro. É fundamental compreender a diplomacia atual do Brasil, considerando a sua postura histórica que prevalece o diálogo, a negociação e o multilateralismo, além de suas relações consolidadas com o Oriente Médio.

Antes de começar a abordar o tema principal, “O Brasil no Sul Global”, gostaria de lembrar de um fato memorável: a conquista da medalha de ouro no Slalom Gigante masculino pelo atleta Lucas Pinheiro Braathen nos Jogos Olímpicos de Inverno. Foi o primeiro ouro Olímpico para o Brasil e para a América do Sul nos jogos de inverno. A vitória dele recebeu mensagens de congratulações de diversos políticos, tanto da direita, quanto da esquerda, demonstrando que de certa forma “o esporte superou a ideologia”.

Em seguida, mencionei a reação do governo Lula ao ataque militar dos EUA contra a Venezuela ocorrido em 3 de janeiro. O Brasil emitiu uma declaração conjunta sobre o incidente, em conjunto com México, Chile, Colômbia e Espanha. O Presidente Lula também escreveu um artigo para o The New York Times, afirmando que a ação estadunidense violava o direito internacional e defendendo a solução por meio do diálogo. Somente em janeiro, Lula manteve conversas telefônicas ou presenciais com 14 chefes de Estado de diversas orientações ideológicas. Dentre esses diálogos, destacou-se a reunião bilateral feita com o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, direitista conhecido por sua postura rígida contra Maduro. Eles trocaram opiniões sobre o plano de integração da infraestrutura regional sul-americana. Essas ações mostram que o governo segue a diplomacia tradicional brasileira, que considera a América do Sul como um eixo central. Lula defende que a união regional da América do Sul é necessária ainda mais para evitar que o continente se envolva nos conflitos internacionais impulsionados pela rivalidade entre EUA e China.

Para entender a diplomacia atual, é essencial conhecer a história. Por isso, apresentei os dez princípios das relações internacionais estabelecidos na Constituição Federal Brasileira de 1988, que formam a base da política externa brasileira. Entre eles, destacam-se a paz, a não intervenção, a igualdade entre os Estados e o respeito aos direitos humanos. Esta base explica a postura brasileira que vem enfatizando a importância do “diálogo” em relação à guerra na Ucrânia e à situação em Gaza. Vale lembrar que a Constituição também prevê, em parágrafo único, a busca pela “formação de uma comunidade latino-americana de nações”.

A base da política externa brasileira contemporânea foi desenvolvida durante o governo Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002, que, em busca da “Autonomia pela Integração”, promovia a diplomacia regional por meio do Mercosul e das reuniões de cúpula sul-americana, mantendo também o forte foco nas relações com os países desenvolvidos. A diversificação das relações diplomáticas do Brasil contemporâneo, consolidou-se durante os governos Lula 1 e 2, com uma expansão marcante dos laços com os países do Oriente Médio e da África, além de uma atuação mais ativa no BRICS e no IBSA, antecipando o que é chamado hoje de “diplomacia do Sul Global”.

O Brasil valoriza o G20 como um fórum onde o Norte Global e o Sul Global se encontram, personificando amultilateralidade e a  multipolaridade. Após sediar a Cúpula do G20 no Rio em 2024, o Brasil foi convidado pela nona vez para o G7, com participação confirmada para 2026, na França. O objetivo brasileiro é posicionar-se como um interlocutor capaz de dialogar com ambos os blocos.

Sobre as relações nipo-brasileiras, a visita de Lula ao Japão em março de 2025 resultou no “Plano de Ação para a Parceria Global Estratégica” para os próximos cinco anos. O plano inclui a assinatura de mais de 80 memorandos, visitas de cúpula bienais e diálogos de defesa e relações exteriores. Em uma entrevista concedida antes da visita ao Japão, Lula afirmou que “o Brasil decidiu que não é um país pobre ou em desenvolvimento, mas um país do Sul Global”. Essa frase do presidente reflete orgulho e força. O “Sul Global” aqui não é um conceito meramente geográfico, mas uma estratégia de aumentar a autonomia e cooperar com os países integrantes para não depender excessivamente de nenhum dos polos na crescente tensão geopolítica entre Estados Unidos e China, conhecida como ”Nova Guerra Fria”.

Para encerrar, apresentei duas frases que ajudam a compreender o país. A primeira diz assim: ”O Brasil é um país de dimensões continentais”. Isso implica que seu comportamento difere de países de pequeno ou médio portes. A segunda é a expressão usada com frequência pelo ex-chanceler Celso Amorim:

“Diplomacia ativa e altiva”. A frase reflete o conceito de que o Brasil é um país que mantém estabilidade diplomática em meio à imprevisibilidade global graças à sua posição geopolítica, recursos naturais vastos e poder na segurança alimentar mundial. Se o Japão captar essa visão sobre o Brasil, acredito que se abrirão novas possibilidades de cooperação bilateral.

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